A tecnologia tornou possível transformar um ato cotidiano de saúde como comprar um medicamento, em uma inferência sobre a pessoa, seu perfil de saúde e seu comportamento, e depois transformar essa inferência em valor econômico. A legislação tenta limitar isso, mas a velocidade e a complexidade dessa cadeia tecnológica criam zonas cinzentas importantes. Na prática, a legislação existe, mas o cumprimento é frágil: a ANPD tem quadro de fiscalização pequeno perto do tamanho do mercado, e para muitas empresas a multa vira apenas um custo calculado mais barato pagar uma eventual sanção do que deixar de lucrar com a venda de dados. O consentimento formal muitas vezes só existe para proteger juridicamente a empresa (um termo assinado que ninguém lê), não para garantir uma escolha real do consumidor. Ou seja: a lei desloca a responsabilidade para o papel, mas não muda o incentivo econômico por trás da prática enquanto vender dado de saúde for mais lucrativo do que o risco de ser multado, o comportamento tende a se repetir, independente da LGPD existir no papel.