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Organização do espaço agrário: atividades econômicas, modernização…
Organização do espaço agrário: atividades econômicas, modernização tecnológica e conflitos
Espaço agrário
Espaço geográfico organizado em função da produção agropecuária
Atividades econômicas
Agricultura
Lavouras temporárias (culturas anuais):
curta ou média duração. Exige novo replantio para safra seguinte
Flexibilidade:
a cultura pode ser trocada a cada safra conforme a demanda e estação do ano
Manejo e rotação:
facilita a rotação de culturas, o que melhora a qualidade do solo e reduz pragas
Custos e investimentos:
requer desembolso anual contínuo para compra de sementes, fertilizantes e preparo do solo
Soja, milho, feijão, arroz, algodão, mandioca, trigo e cana-de-açúcar
Ocupam as maiores extensões territoriais do país: MG, GO, MS (grãos e algodão); PR, RS, SC (soja, milho, trigo, arroz irrigado e feijão); MA, TO, PI, BA (soja, milho e algodão); SP (cana-de-açúcar)
Lavouras permanentes (culturas perenes):
longa duração
Longo prazo:
maior investimento inicial e período de espera de 2 a 5 anos até a colheita significativa
Rigidez:
não há a possibilidade de troca rápida de atividade caso os preços do mercado caiam
Proteção do solo:
a estrutura do solo tende a sofrer menos erosão mecânica contínua
Café, laranja (e demais cítricos), cacau, maçã, uva, banana, mamão, pimenta-do-reino e seringueira
MG, SP e ES (café e cítricos); Vale do São Francisco e BA (fruticultura irrigada e cacau); PA e RO (açaí, cacau, dendê e café conilon); RS e SC (fruticultura de clima temperado)
Pecuária
Extensiva:
gado criado solto em grandes extensões de terra
Alimentação natural:
a dieta depende do pasto e suplementação mineral simples
Baixo investimento por hectare:
menor necessidade de instalações complexas, máquinas de grande porte ou mão de obra especializada contínua
Ciclo de produção mais longo:
o animal demora mais para atingir o peso de abate
Baixa taxa de lotação:
poucas cabeças de gado por hectare
Maior uso de terra (principal causa da conversão de vegetação nativa em pastagens) e degradação do solo. Maior emissão de gases de efeito estufa (o bom manejo das pastagens faz o solo atuar como sequestrador de carbono). Maior impacto nas nascentes (o gado com acesso livre a rios)
Intensiva:
máxima produtividade em menor espaço
Alimentação controlada:
o rebanho fica em instalações limitadas e recebe ração balanceada, silagem e grãos de alta qualidade
Uso intensivo de tecnologia:
aplicação de melhoramento genético, inseminação artificial, monitoramento por chips/sensores e automação do manejo
Abate precoce:
a alimentação reduz o tempo necessário para o animal chegar ao mercado
Alta taxa de lotação:
elevado número de animais por hectare
Emissão de gases de efeito estufa indireta. Acumulo de dejetos (se não houver biodigestores podem infiltrar e contaminar o lençol freático ou causar eutrofização dos rios). Alto consumo de água
Extrativismo
Vegetal:
retirada de produtos fornecidos espontaneamente pelas plantas
Recurso renovável:
quando praticado de forma sustentável
Papel socioambiental:
fundamental para a subsitência e renda de populações tradicionais
Castanha-do-Brasil, açaí, látex, cera de carnaúba, coco babaçu e madeira de manejo florestal
Mineral:
retirada de minérios, metais, rochas e combustíveis fósseis
Recurso não renovável:
não se regeneram em escala de tempo humana
Modos de operação:
mineração industrial de grande escala até a exploração artesanal
Alto impacto ambiental:
alteração na paisagem, remoção de cobertura vegetal, risco de contaminação de solos e cursos d'água e geração de rejeitos
Minério de ferro, bauxita, ouro, cobre, calcário, petróleo e gás natural
Reservas extrativistas são áreas protegidas (UC), alinhadas com a preservação ambiental e os direitos sociais: a terra é de domínio público, mas o uso é concedido às populações tradicionais que dependem do extrativismo sustentável, da agricultura de subsistência e da criação de animais de pequeno porte
O conceito foi desenvolvido na década de 1980 na Amazônia, impulsionado pelo movimento de seringueiros no Acre
Importância social
Garantia territorial e segurança fundiária. Preservação cultural e saberes tradicionais. Geração de renda sustentável e gestão participativa
Importância ambiental
Barreira contra o desmatamento. Conservação da biodiversidade. Manejo sustentável regulamentado. Mitigação das mudanças climáticas
Modernização tecnológica
Revolução verde
Começou com pesquisas lideradas pelo agrônomo Norman Borlaug (USA), no México, focadas no desenvolvimento de variedades de trigo de alto rendimento
Ocorreu no contexto da Guerra Fria: medo Malthusiano (receio que o crescimento populacional da Ásia e América Latina superasse a capacidade mundial de produção de alimentos) e geopolítica (governos ocidentais temiam que a fome no campo estimulassem revoluções camponesas de inspiração socialista)
Pilares do pacote tecnológico
Melhoramento genético:
criação de sementes híbridas e variedades de alta produtividade, especialmente trigo, arroz e milho, resistente a pragas e de curta duração
Insumos químicos:
uso intensivo de fertilizantes sintéticos para nutrir o solo e de defensivos agrícolas para controle de pragas
Mecanização do solo:
tratores, colheitadeiras e semeadeiras que reduziram a necessidade de mão de obra humana e aceleraram os processos de plantio e colheita
Irrigação controlada:
expansão de sistemas artificiais de irrigação tornando o cultivo independente do regime regular de chuvas
Prós
Aumento da produtividade
Queda no preço dos alimentos
Avanço científico
Contras
Degradação ambiental
Êxodo rural e concentração de terra
Perda da biodiversidade
Modernização conservadora
Conceito da sociologia e economia política
O país modernizou intensamente suas forças produtivas, mas conservou intactas a estrutura social arcaica e a concentração de terras
Agricultura de precisão
Estrutura de gestão focada em tratar a lavoura segundo suas variações de área para área
Agricultura 4.0
Ecossistema tecnológico que conecta a agricultura de precisão a toda cadeia de produção em tempo real
Internet das coisas:
sensores no solo que medem a umidade e a temperatura em tempo real, acionando sistemas de irrigação quando necessário
Sensoriamento remoto e drone
Inteligência artificial e big data:
algoritmos cruzam dados históricos do clima, preços de mercado, condições do solo e desempenho das máquinas
Telemáticas e frotas conectadas
Mapeamento de solo e produtividade
Aplicação em taxa variável:
o maquinário ajusta automaticamente a dosagem de fertilizantes ou sementes à medida que se desloca pelo campo
Piloto automático e GPS:
tratores e pulverizadores seguem rotas calculadas ao centímetro
Complexo agroindustrial
Integração profunda e dependência mútua entre a agricultura, a indústria e o setor de serviços
Origem
O conceito ganhou força a partir de 1970
Para explicar o impacto da revolução verde e da modernização da agricultura
Agricultura tradicional:
agricultor produzia através das próprias sementes, usava tração animal, adubo orgânico e vendia o excesso no mercado local
Agricultura sob CAI:
o fazendeiro compra tratores, fertilizantes sintéticos, sementes transgênicas e agrotóxicos de multinacionais, e vende sua produção quase integralmente para agroindústrias
Estrutura
Setor a montante (antes do campo):
indústrias de máquinas agrícolas, fertilizantes, defensivos, rações e biotecnologia
Setor agropecuário (no campo)
: o cultivo e a criação de animais, operando sob metas rígidas de padronização impostas pelo mercado
Setor a jusante (depois do campo):
agroindústrias, empresas de logísticas, redes de frios, embalagens, exportadores e grande varejo
Conceito crítico, criado pela geografia econômica e economia política para estudar a transformação do campo, a industrialização da agricultura e as relações de poder entre setores
Papel dos commodities agrícolas na balança comercial brasileira
Geração do superavit comercial
O valor gerado pela venda de produtos agrícolas para o exterior supera amplamente o valor dos insumos importados
Entrada de divisas e estabilidade cambial
Gera entrada massiva de moedas estrangeiras no mercado local
Fortalece o volume de dólares sob custódia do Banco Central, que protege o país contra choques financeiros globais
A maior oferta de dólares no mercado interno ajuda a amortecer altas bruscas da moeda americana
Principais commodities
Complexo soja:
1º lugar. China e União Europeia
Carne bovina e de frango:
1° lugar. China, Oriente Médio e Japão
Açúcar e café:
1º lugar. União Europeia, EUA e Ásia
Milho e algodão:
entre os dois maiores exportadores. Ásia e Europa
Suco de laranja e celulose:
liderança global. EUA, União Europeia e China
Desafio
Volatilidade de preço:
os preços dos commodities são fixados em bolsas internacionais. Quedas na cotação global reduz a arrecadação em dólares do Brasil
Risco de "reprimarização":
a concentração excessiva de produtos de baixo valor agregado na pauta exportadora reduz o incentivo ao desenvolvimento da indústria de transformação nacional
Exigências ambientais e climáticas:
quebras de safras por eventos climáticos e novas regulamentações internacionais podem bloquear o acesso a mercados consumidores estratégicos
Revolução verde no Brasil
Ganhou força a partir de 1970, pela Embrapa
Pilares da atuação do Estado
Ciência e tropicalização:
a Revolução verde original havia sido criada para as regiões de clima temperado, a Embrapa (criada em 1973), tropicalizou espécies vegetais (soja e milho), desenvolveu técnicas para corrigir o solo ácido do Cerrado (calagem) e Fixação Biológica de Nitrogênio
Crédito rural subsidioso:
a criação do Sistema Nacional de Crédito Rural em 1965, passou a conceder empréstimos com juros baixos para que produtores rurais pudessem adquirir o pacote tecnológico e defensivos agrícolas
A "marcha para o Oeste" e expansão da fronteira:
famílias de agricultores do Sul e Sudeste foram incentivados por programas governamentais a migrar para o Centro-Oeste
Mecanização e agroindústria:
implementação do maquinário e instalação de indústrias fornecedoras de insumos e multinacionais do setor de alimentos e grãos
Cenário brasileiro
Maior exportador líquido de alimentos do mundo
Uso de tecnologia
Crescimento vertical (mais produção por hectare colhido)
Mão de obra altamente mecanizada
Concentração fundiária e êxodo rural
Degradação do bioma Cerrado:
conversão acelerada da vegetação nativa em pastagens e lavouras reduziu a cobertura original e afetou rios e lençóis freáticos
Contaminação por agroquímicos:
poluição do solo e da água, e casos de intoxicação em comunidades rurais
Dualismo agrário:
divisão profunda no campo brasileiro entre o agronegócio patronal/exportar e agricultura familiar
Evolução da agricultura
Agricultura 1.0
Até o início do século XX. Tração animal, trabalho manual intensivo e baixa produtividade
Agricultura 2.0
Meados do século XX. Chegada dos tratores e fertilizantes
Agricultura 3.0
Anos 1990-2000. GPS, monitores e colheita e agricultura de precisão
Agricultura 4.0
Século XXI. Agricultura digital
Financiamento ao agronegócio patronal
Destina-se a médios e grandes proprietários rurais, empresas agrícolas e grupos corporativos que contratam mão de obra assalariada
Objetivo socioeconômico
Maximizar a produtividade por hectare, gerar saldo positivo na balança comercial, suprir as cadeias industriais e o mercado global de matéria prima
Destino da produção
Predominantemente commodities agrícolas
Condições financeiras
Volume massivo de recursos:
maior fatia do orçamento total do Plano Safra (mais de 75% a 80% do crédito rural disponibilizado no país)
Taxas de juros:
podem ser controladas pelo governo ou indexadas a taxas de mercado, com total de crédito significativamente mais alto por propriedade
Foco em capital intensivo:
financiamento voltado a compra de frotas de máquinas de alta tecnologia, insumos químicos em larga escala e infraestrutura de armazenagem
Orientação para exportação como característica do agronegócio moderno
A produção agropecuária moderna é planejada, financiada, estruturada e executada com o objetivo de atender à demanda do mercado internacional
Pilares da orientação para exportação
Ganho de escala e alta tecnologia:
para competir no mercado global, o produtor precisa vender em grandes volumes para compensar margens de lucro dinâmicas. Isso exige o emprego intensivo de tecnologia para elevar a produtividade por hectare e reduzir o custo por tonelada produzida
Padronização, rastreabilidade e certificações:
o comprador internacional impõe regras rígidas. Precisa seguir protocolos de fitossanidade (ausência de pragas e controle no uso de defensivos); rastreabilidade (capacidade de provar a origem); e compliance socioambiental (certificação de que a produção não utilizou trabalho análogo a escravidão)
Precificação em moeda forte e financeirização:
mercadorias são exportadas como commodities em bolsas de valores. O preço da safra varia segundo a oferta e demanda mundiais. Para se proteger das variações, utiliza ferramentas dos mercado financeiro (contratos futuros, travamentos de custos de insumos e captação de recursos com investidores internacionais)
Logística de escala e infraestrutura dedicada:
exige corredores de escoamento eficientes
Vulnerabilidade geopolítica:
guerras, sanções e mudanças da política comercial de compradores impactam na rentabilidade interna
Tensão com a segurança alimentar:
grande parte da terra e dos investimentos é voltado para culturas de exportação, enquanto itens de consumo local podem perder espaço e oscilações de preço
Modernização desigual entre regiões
O Estado e os grandes capitais privados escolheram regiões estratégicas para receber a maior parcela de investimentos, crédito subsidiado, infraestrutura e inovação
Alta densidade tecnológica
Centro-sul (Sul, Sudeste e Centro-Oeste):
núcleo histórico do agronegócio no Brasil. Concentra a melhor infraestrutura logística, a maior densidade de redes de comunicação, cooperativas forte capitalizadas e facilidade de acesso a financiamentos bancários
MATOPIBA:
nova fronteira de expansão do agronegócio global. Relevo plano, terras baratas compatíveis com a correção química do solo e atração de grandes fundos de investimentos e empresas corporativas de grãos
Menor inserção tecnológica
Região Norte (Amazônia):
logística precária, grandes distâncias dos centros consumidores, restrições legais e ambientais e insegurança fundiária
Interior do Nordeste:
vulnerabilidade a secas prolongadas, menor volume de crédito rural concedido, solos rasos e predominância de pequenas propriedades de subsistência
PRONAF
Condições financeiras
Juros subsidiados:
taxas de juros abaixo da taxa do mercado, com forte equalização financiada pelo Tesouro Nacional
Linhas específicas:
linhas de crédito direcionadas para jovens rurais, mulheres, agroecologia, pequenas agroindústrias e sistemas de irrigação
Limites de crédito
: teto de empréstimos menor por produtor, mas com abrangência maior
Destino da produção
Mercado interno
Criado em 1995 para os pequenos produtores rurais cuja gestão e mão de obra são predominantemente familiares (Cadastro Nacional da Agricultura Familiar)
Agropecuária x agronegócio
Agropecuária
Setor primário da econômia
Agronegócio
Conjunto amplo de todas as operações de produção, processamento, distribuição e comercialização de produtos agrícolas e pecuários
Antes da porteira:
indústria e fornecedores de insumos essenciais para a produção
Dentro da porteira:
agropecuária
Depois da porteira:
beneficiamento, agroindústrias, transporte, armazenagem, exportação, redes de supermercados e comércio final
Biotecnologia
Organismos geneticamente modificados
Edição gênica
Bioinsumos e controle biológico
Melhoramento genético animal
Área da ciência que utiliza organismos vivos, células ou sistemas biológicos para desenvolver produtos, tecnologias e procesos
Êxodo rural
Mecanismos
Substituição direta do trabalho por máquinas
Inviabilidade da agricultura familiar
Desarticulação das relações tradicionais de trabalho
Concentração de terras