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Pureza moral e perseguição na história, Capítulo 2: Pureza nos conflitos…
Pureza moral e perseguição na história
Capítulo 2:
Pureza nos conflitos religiosos da França do Século XVI
Objetivo
: “este capítulo concentra-se no papel da pureza e da impureza em uma sociedade específica durante um período específico. Focaremos no significado particular das palavras pureza e impureza e, especialmente, nos comportamentos a elas associados.” (
Moore, 2000, p. 16
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“O foco desta investigação está no significado público da pureza e em sua influência e origem sociais. Assim, uma carta de um obscuro nobre provincial huguenote discutindo longamente as noções de pureza e poluição teria um interesse um tanto curioso, porém muito pouca relevância para esta pesquisa.” (
Moore, 2000, p. 16
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I.
Pureza e a criação de uma nova identidade religiosa
“As primeiras manifestações de reforma religiosa na Igreja Católica francesa das quais temos registro surgem no início da década de 1520. Tratava-se de tentativas de “purificar” o sistema de culto, pondo fim à prática de ganhar dinheiro por meio da venda de serviços religiosos. Havia também um marcado incômodo com o culto aos santos, que — afirmava-se na França e em outros lugares havia se tornado uma superstição que usurpava a adoração devida somente a Deus. Nesse estágio inicial, os reformadores ainda vislumbravam uma transformação pacífica das doutrinas e práticas religiosas, por meios educativos.” (
Moore, 2000, p. 17
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“No início, a Reforma não tinha ministros nem um dogma preciso. Ela reduzia-se a uma espécie de avivamento moral, uma “ressurreição do coração”. Seus adeptos acreditavam estar envolvidos em um simples retorno ao cristianismo primitivo — naqueles dias, um ato potencialmente explosivo, mais do que seus próprios seguidores percebiam. Esse retorno a uma versão “pura” do cristianismo permaneceu um princípio central das crenças huguenotes sobre si mesmos ao menos durante a era das Guerras de Religião (1562–1598), e provavelmente por muito mais tempo. Era a chave da nova identidade que constituíam.” (
Moore, 2000, p. 18
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“Por muito tempo após o início, os adeptos da Reforma não tinham qualquer noção de resistência. Seu respeito pela autoridade era inacreditável e estendia-se até o ponto de aceitarem a própria morte pelas mãos dessa autoridade. Michelet relata vários exemplos comoventes. Eles desaprovavam fortemente os revolucionários camponeses ativos na Suábia em 1525 e também os anabatistas em Münster em 1535. Para os seguidores da Reforma na França, o princípio ético era: “Quem pega em armas não é cristão.” Os católicos, por outro lado, não demonstravam hesitação em tomar a espada.” (
Moore, 2000, p. 18
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“Com a ascensão do rei Henrique II (1547–1559), o prestígio de Calvino e outras causas produziram uma mudança brusca. Profissionais do direito, comerciantes e nobres começaram a engrossar as fileiras. Mais importante de tudo foi a adesão de vários grandes nobres do reino por volta de 1558.” (
Moore, 2000, p. 18
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“Ambas as religiões enfatizavam “fortemente o que poderiam e fariam pelo indivíduo após a morte, e apenas secundariamente o que poderiam fazer para ajudar as pessoas nas crises de suas vidas. Quanto a esse aspecto terreno, os católicos aparentemente ofereciam algo um pouco mais atraente. Para ambas, entretanto, o efeito sobre o modo como se esperava que alguém conduzisse sua vida dependia fortemente de promessas e ameaças sobre a vida futura.” (
Moore, 2000, p. 19
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“Dessa forma, os huguenotes tentaram transformar em grave desvantagem uma das principais atrações do catolicismo — sua postura condescendente em relação ao pecado, à tentação e à impureza. A frequência com que os huguenotes faziam essas acusações, especialmente em suas canções populares (que serão discutidas adiante), sugere que elas eram eficazes.” (
Moore, 2000, p. 19
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“A doutrina religiosa huguenote tomou forma em oposição ao catolicismo. Grupos, com muita frequência, criam sua própria identidade por meio da oposição a outros grupos. A defesa huguenote da pureza, no sentido de um retorno às práticas simples do cristianismo dos Evangelhos, implicava e exigia eliminar os acréscimos posteriores do catolicismo: o culto a Maria e aos santos, a missa e outros serviços pagos e orações pelos mortos, a presença mágica de Cristo na comunhão. Talvez porque os Evangelhos apresentassem Cristo como muito ativo na cura dos doentes e na ressurreição dos mortos, os huguenotes aparentemente poupavam essas características do catolicismo.” (
Moore, 2000, p. 19
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“O que, então, a Reforma oferecia em substituição aos serviços católicos recém-descritos? À primeira vista, a resposta de Galpern soa algo como “autossacrifício e virtude”.” (
Moore, 2000, p. 19
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“Na França do século XVI, pureza moral significava: (1) descartar todo o aparato católico de perdão; (2) adotar controles estritos sobre os impulsos sexuais e sobre os prazeres da bebida e da mesa (à medida que a doutrina se desenvolve, ouvimos muito menos sobre o controle da agressão, a gentileza e a pacificidade); e (3) tudo isso em nome da criação de uma utopia teocrática na terra, à la Genebra. A utopia teocrática era uma ideia de Calvino. Aparentemente, não fazia parte das esperanças e divagações populares.” (
Moore, 2000, p. 20
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“O que, afinal, significava a pureza moral huguenote no âmbito das exigências da vida cotidiana? A resposta é muito simples em termos gerais e bastante complexa em termos de comportamento concreto. O convertido tinha de se retirar da sociedade católica e ingressar no mundo social huguenote.” (
Moore, 2000, p. 20
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“Em outras palavras, o convertido precisava renunciar à participação na comunidade e no estamento que dependiam do compartilhamento de rituais religiosos em benefício de todos.” (
Moore, 2000, p. 20
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“Ódios compartilhados são altamente eficazes para permitir que as pessoas convivam.” (
Moore, 2000, p. 21
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Resumo
“Para resumir e revisar a criação de uma identidade protestante francesa, o esforço começou na década de 1530 com pequenos e dispersos grupos que professavam um retorno a uma forma pura e original do cristianismo. Nessa fase inicial, esses indivíduos eram defensores gentis e pacíficos da submissão à autoridade e contrários à violência, ainda que dispostos a submeter-se como mártires às autoridades católicas do Estado. Em 1536, surgiu uma doutrina oficial e autoritária na forma de L’Institution Chrétienne, de Jean Calvin. Em 1559, vinte e três anos depois, havia protestantes em número suficiente para realizar um sínodo nacional que adotou a doutrina calvinista e uma forma presbiteriana de governo eclesiástico. Por essa época, também passaram a ser conhecidos como huguenotes. Desde o início enfrentaram perseguição, o que, naturalmente, endureceu suas convicções e lhes deu a sensação de serem uma oposição autodesignada. A perseguição permaneceu contínua, embora irregular, exceto nos territórios temporariamente sob controle huguenote.” (
Moore, 2000, p. 21
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“Assim, em 1561, segundo Galpern, a França possuía uma minoria protestante autojustificada, desfrutando de uma tolerância momentânea e limitada por parte da Coroa. Embora ainda fossem minoria, os pequenos e pacíficos grupos originais de crentes haviam se consolidado em uma multidão irada, ameaçadora e ameaçada.” (
Moore, 2000, p. 21
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II.
O conceito de pureza na Instituição Cristã de Calvino
“Pouco depois da publicação da L’Institution Chrétienne em 1536, Calvino passou a exercer influência predominante no movimento huguenote.” (
Moore, 2000, p. 21
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“Calvino era, ele próprio, um intelectual cuidadosamente formado, que conseguiu assumir o controle do movimento huguenote pela força de seu intelecto, pela intensidade de sua personalidade e por sua habilidade em manobras políticas” (
Moore, 2000, p. 21
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Pureza em Calvino
“Para Calvino, nesse trecho-chave, “puro” é um termo estritamente religioso, cujo oposto é “amaldiçoado” ( maudite ): “Deus proíbe a lascívia... Ele exige de nós pureza e castidade.” Assim, pureza e castidade são sinônimas.” (
Moore, 2000, p. 22
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“Aqui temos uma explicação para as misérias humanas que evita cuidadosamente atribuir a responsabilidade a Deus. Em vez disso, as causas são o comportamento impuro de Adão com a maçã e com Eva, embora esses detalhes mundanos não sejam explicitados nesse trecho polêmico. Ainda assim, o sentido é suficientemente claro: as fraquezas morais de Adão são a causa de toda a maldade e sofrimento desde seus dias.” (
Moore, 2000, p. 22
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“Assim, temos uma definição do mal como uma força de comportamento “amaldiçoado”, ou de impureza, e uma explicação de onde essa impureza veio. A culpa foi toda de Adão, não de Deus. Haveria algo que os seres humanos vivos poderiam, segundo Calvino, ser capazes de fazer para lidar com essa tragédia herdada?” (
Moore, 2000, p. 22
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“Tal como acabamos de descrever, o sistema parece totalmente hermético e, para os crentes, absolutamente aterrorizante. Nenhuma quantidade de virtude ou boas obras serviria para evitar a danação eterna. Essa tese foi, é claro, um golpe contra a prática católica vigente, que então havia transformado a salvação em uma mercadoria, no sentido marxista do termo: algo livremente reproduzível, que podia ser comprado e vendido em um mercado aberto.” (
Moore, 2000, p. 22
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A salvação estava na fé:
“Para parafrasear ligeiramente: toda a humanidade é impura. Mas a fé em Jesus Cristo salvará aqueles que a possuem. Assim, a fé traz salvação, pureza.” (
Moore, 2000, p. 23
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III.
Injúrua política: imagens católicas dos huguenotes
“Foi um passo curto passar de considerar os huguenotes como poluentes para “purificar” o reino, erradicando-os e destruindo-os. Michel de l’Hôpital não deu esse passo. Maria de Médici tentou fazê-lo cerca de doze anos depois, tendo apenas uma noção vaga do que suas ações significavam. Em devido tempo será necessário examinar mais de perto essa crise horrível e reveladora: o Massacre de São Bartolomeu.” (
Moore, 2000, p. 24
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“Como a sedição representava uma ameaça tão perigosa, ela não apenas justificava, mas exigia medidas aterrorizantes para eliminá-la ou até mesmo simplesmente controlá-la.” (
Moore, 2000, p. 25
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“Assim, além de serem suspeitos de sedição, os huguenotes foram acusados de blasfêmia pronunciada no mais alto nível de sua própria organização. Qualquer uma dessas acusações bastava para excluir uma pessoa da sociedade humana. Em linguagem do final do século XX, eles foram desumanizados e demonizados.” (
Moore, 2000, p. 25
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IV.
Invectiva política: imagens huguenotes do catolicismo
“As principais queixas dos huguenotes contra os católicos franceses eram claras e simples. Para um huguenote, um católico era, caso fosse um oficial eclesiástico, parte de uma organização corrupta e exploradora. A Igreja Católica supostamente cobrava taxas excessivas por serviços como missas privadas. Além disso, a Igreja teria adquirido enormes quantidades de propriedade, especialmente terras, por meios ilícitos. Apesar dessa riqueza, continuava a extrair pagamentos dos pobres sob a forma do dízimo. Nesse ponto, as queixas huguenotes se fundiam com reclamações populares mais amplas — algo que contribuiu de maneira bastante perceptível para o apoio aos huguenotes entre os segmentos mais pobres das populações urbanas.” (
Moore, 2000, p. 26
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“Por fim, após o Massacre da Noite de São Bartolomeu, em 1572, os oficiais católicos foram amplamente — e corretamente — acusados de assassinato em massa.” (
Moore, 2000, p. 27
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“Aqui, todo o aparato ritual do catolicismo romano é objeto de indignação moral e desprezo — ambos expressos em uma voltagem bastante alta. Por si só, essa pequena canção, presumivelmente ao menos uma amostra aproximada dos sentimentos populares huguenotes, revela o quão pequena era, naquele momento, a possibilidade de um modus vivendi entre as duas religiões. Também demonstra de forma convincente que Calvino conhecia e articulava as queixas populares, mesmo enquanto abafava seu fogo sob um manto teológico.” (
Moore, 2000, p. 27
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“A Canção 13, verso 8, datada de 1532, expressa já nessa data inicial uma forte disposição para recorrer à violência: “Se a verdade não puder vencer pelo direito e pela escritura, pela pena e tinta, queimem, afoguem, matem em abundância.” Os católicos certamente estavam cientes dessa corrente assassina no pensamento huguenote. O inverso também deve ter sido verdadeiro. Por esse motivo também não há mistério algum sobre o fracasso das tentativas de reconciliação. Apesar dos relatos de oposição huguenote à violência nos primeiros dias do movimento, a luta contra os católicos rapidamente se tornou uma questão de vida e morte. Na verdade, era ainda mais séria, porque dizia respeito ao que acontecia às pessoas depois da morte.” (
Moore, 2000, p. 28
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V.
Crises: do conflito religioso à guerra de classes?
“A clivagem religiosa na sociedade francesa do século XVI era principalmente, embora não inteiramente, uma clivagem vertical, com tanto ricos quanto pobres em ambos os lados da divisão religiosa. Havia também uma clivagem — às vezes muito acentuada — entre ricos e abastados de um lado e os pobres do outro. Em muitos lugares, e ao longo do tempo, as diferenças religiosas exacerbaram o conflito entre ricos e pobres.” (
Moore, 2000, p. 29
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“No Massacre da Noite de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572), aqueles que fizeram a matança foram majoritariamente os pobres de Paris. Suas vítimas eram huguenotes abastados ou, em muitos casos, simplesmente pessoas bem situadas. O outro exemplo principal foi o que ficou conhecido como o Carnaval de Romans, uma cidade próxima a Grenoble, na margem direita do rio Isère, pouco antes de desaguar no Ródano. Lá, a elite local realizou uma matança preventiva dos segmentos mais pobres da cidade, que haviam demonstrado alguns sinais de possível revolta. Examinaremos de perto esses dois surtos críticos.” (
Moore, 2000, p. 29
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Massacre da Noite de São Bartolomeu
“O contexto do Massacre da Noite de São Bartolomeu era o seguinte. Na época do último rei Valois, as tensões e contradições na alta política francesa haviam chegado a um ponto em que o assassinato parecia ser o único meio eficaz de mudar líderes políticos e políticas. Enquanto isso, o chefe do partido huguenote, o almirante Coligny, parecia à poderosa rainha-mãe, Catarina de Médici, e a outros grandes líderes franceses, estar seguindo — por conta de suas crenças protestantes e“conexões — uma política potencialmente muito perigosa para a monarquia francesa e para a própria França: Coligny queria que a França desse ajuda militar aos rebeldes protestantes nos Países Baixos. Isso fazia parte de um plano para criar um grande e poderoso bloco protestante no noroeste da Europa.” (
Moore, 2000, p. 30
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“Embora Catarina de Médici tivesse, no passado, dado muito apoio a Coligny, ela recuou diante do que parecia ser um futuro muito arriscado para seu filho, o rei. Sua política era geralmente orientada por personalidades, mais especificamente pelas personalidades dos membros de sua família.” (
Moore, 2000, p. 30
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“Nenhuma fonte que eu tenha visto sugere sequer que Catarina e seu filho, o rei Carlos IX, tenham decidido matar dois coelhos com uma cajadada só: autorizar o assassinato do ferido Coligny e um massacre geral da elite huguenote, convenientemente reunida em Paris para o grande casamento. Mas foi exatamente isso que aconteceu.” (
Moore, 2000, p. 30
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“Em grande medida, o massacre tornou-se uma forma de guerra de classes, em vez de guerra religiosa. Mas era mais do que isso. A legitimação geral do assassinato permitiu que ele ocorresse também entre as camadas mais baixas, embora nesses casos pareça ter recebido um verniz religioso. Aqueles contra quem alguém guardava um ressentimento, ou que eram obstáculo a uma herança, eram rapidamente rotulados de huguenotes e mortos.” (
Moore, 2000, p. 30
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“No entanto, o massacre de classe não é uma explicação completa. A autorização e o encorajamento ao assassinato permitiram que todas as formas de hostilidade homicida latentes na população de Paris em 1572 viessem à tona — que se deslocassem da fantasia para a realidade. Crianças estavam entre as vítimas, mas também entre os assassinos. Nesse massacre, a perversidade humana ordinária, em sua pior forma, emergiu à superfície — não pela primeira vez e certamente não pela última.” (
Moore, 2000, p. 31
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“Os responsáveis pelo Massacre não demonstraram qualquer sinal de remorso. Em vez disso, havia alívio diante do aparente desbaratamento de uma ameaça perigosa. O povo de Paris proclamou Catarina de Médici “mãe do reino e preservadora do nome cristão”. O papa, entre várias formas de celebrar o Massacre, mandou cunhar uma medalha em homenagem a esse “grande dia” e enviou um cardeal para entregá-la a Carlos IX com suas congratulações.” (
Moore, 2000, p. 31
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Carnaval de Mardi Gras em Romans (1580)
“significado foi puramente regional. Ainda assim, e assim como o Massacre de São Bartolomeu, o Carnaval revela como o conflito entre ricos e pobres podia atravessar o alinhamento entre católicos e huguenotes. Assim, para nosso propósito atual, o significado do Carnaval em Romans reside em suas semelhanças e diferenças em relação ao Massacre da Noite de São Bartolomeu.” (
Moore, 2000, p. 32
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“Em ambos os casos havia uma grave ameaça ao controle das elites estabelecidas por parte de elementos descontentes das camadas inferiores. O conflito em Romans opunha uma camada superior formada por comerciantes-proprietários de terras e patrícios burgueses a pequenos proprietários situados entre os mestres de ofício.” (
Moore, 2000, p. 32
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“Os nobres não queriam perder sua isenção de impostos e, especialmente, não queriam pagar tributos sobre terras recentemente compradas de plebeus. Muitos nobres da região haviam adquirido seu status apenas recentemente — e justamente para escapar da carga tributária complexa imposta aos integrantes do Terceiro Estado. Não estavam, portanto, dispostos a abrir mão de seus novos privilégios e resistiam firmemente para defendê-los. Por outro lado, os plebeus estavam irritados porque as compras de terras pelos nobres retiravam essas propriedades da base tributária. Assim, os plebeus enfrentavam um aumento da carga fiscal distribuída sobre uma base cada vez menor.” (
Moore, 2000, p. 32
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“A guerra camponesa estava plenamente em curso no fim de 1578 e início de 1579. Em 1580, os patrícios de Romans sentiam-se cercados por plebeus hostis nos bairros operários da cidade e por camponeses hostis nas paróquias rurais. O que poderia acontecer se esses dois grupos se unissem e invadissem a cidade?” (
Moore, 2000, p. 32
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“Por causa da presença huguenote, as forças reais inicialmente se abstiveram de atacar o forte. Em setembro de 1580, elas finalmente o atacaram e o tomaram. A queda desse forte marcou o fim da guerra camponesa no Dauphiné. Assim, as forças da ordem — como sempre, uma forma historicamente específica de ordem, cujas injustiças não suportam um exame muito minucioso — venceram decisivamente tanto no front urbano quanto no rural por meio de uma força aplicada de forma hábil.” (
Moore, 2000, p. 33
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“Como Natalie Zemon Davis apontou, o compromisso com a crença de que estavam combatendo a poluição geralmente impedia qualquer manifestação de culpa ou remorso por parte daqueles que, em ambos os lados, participavam de morticínios” (
Moore, 2000, p. 34
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VI.
Pureza e poluição no antigo testamento e nas guerras de religião
“As circunstâncias que cercavam os dois casos eram muito diferentes. Os antigos hebreus, durante o período formativo de suas doutrinas — da era mosaica até a época dos profetas — eram um grupo de conquistadores-colonizadores não muito impressionantes, que formavam uma ilha monoteísta em um mar geralmente hostil e politeísta. As autoridades religiosas hebraicas tinham de lutar continuamente, e nem sempre com sucesso, para manter a identidade religiosa e moral hebraica diante das ameaças e tentações desse mar ao redor.” (
Moore, 2000, p. 34
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“Essa diferença de circunstâncias entre hebreus e franceses do século XVI não parece ter tido consequências notáveis. Pelo contrário, foram as semelhanças que produziram resultados tão nefastos. Em ambos os casos havia líderes e seguidores que se sentiam ameaçados em sua identidade religiosa, moral e social por descrentes que desafiavam toda a base dessa identidade. Na França, a resposta a esse desafio levou algum tempo para se desenvolver, porque, a princípio, o desafio protestante parecia pacífico e trivial.” (
Moore, 2000, p. 34
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“Em termos de seu efeito sobre o sofrimento humano, o mais significativo de todos esses desenvolvimentos é todo o processo de criação de aprovação moral para a crueldade. Para criar essa aprovação moral, é necessário definir o inimigo poluidor como não humano ou inumano, isto é, fora do âmbito dos seres humanos aos quais se deve ao menos a menor obrigação enquanto criaturas semelhantes. Além disso, o inimigo poluidor precisa ser definido como uma ameaça demoníaca à ordem social existente. A desumanização e a demonização servem para diminuir ou, em muitos “casos, eliminar completamente qualquer remorso ou culpa diante das mais bárbaras e repugnantes crueldades.” (
Moore, 2000, p. 35
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“No conjunto, essa crueldade regularizada e rotinizada talvez tenha sido a contribuição mais importante para o sofrimento humano.” (
Moore, 2000, p. 35
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“Essa imposição moralmente aprovada da morte com crueldade é uma continuidade que ressurgiu na Europa em meados do século XX — mais um motivo para enfatizar sua importância. O Holocausto não foi um surto de ira em estado de ebulição. Foi um empreendimento altamente controlado e organizado, embora tenha havido inúmeros percalços, como ocorre em qualquer burocracia gigantesca e rapidamente montada. Como Daniel Goldhagen demonstrou de forma tão vívida e com abundantes evidências, houve a mesma desumanização e demonização do inimigo poluidor (neste caso, os judeus), a mesma ausência de culpa e remorso. Em muitos casos, os executores tratavam sua tarefa macabra como um passeio de verão, com direito a fotografias, namoradas, piqueniques e semelhantes — e aos mesmos tipos de crueldade supérflua. Os manifestantes franceses de 1572, em explosões de fúria, jogavam bebês pelas janelas. Soldados alemães em 1942 matavam bebês a sangue-frio.” (
Moore, 2000, p. 35
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CAPÍTULO 1:
Pureza e impureza moral no Antigo Testamento
Objetivo
: “análise começará com um exame interpretativo da pureza e da impureza moral entre os antigos hebreus, tal como reveladas pelas admoestações e proibições presentes no Antigo Testamento” (
Moore, 2000, p. 1
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“Assim, uma pessoa moralmente pura é aquela livre de poluição moral. A natureza e as fontes dessa poluição variam enormemente no tempo e no espaço.1 Como a poluição é a variável que define a pureza, ela se torna inevitavelmente o tema central deste estudo como um todo, não apenas do Antigo Testamento” (
Moore, 2000, p. 1
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Fontes de Poluição Moral
Proibições sexuais
“Essas proibições buscavam, por sua vez, evitar que os antigos hebreus fossem culturalmente absorvidos pelos povos que haviam conquistado e, assim, corressem o risco de perder sua identidade religiosa.” (
Moore, 2000, p. 1
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Idolatria
Restrições alimentares
Objetos impuros, como sangue e cadáveres
Proibições sexuais e idolatria
Em jeremias
“Isso era consistente com o remédio geral de Jeremias para a idolatria — ou reação a ela: quase total matança e destruição (Jer. 46:10; 48:10).” (
Moore, 2000, p. 3
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Em Ezequiel
“A alegoria encerra-se, sem surpresa, com a ordem de Deus para que sejam apedrejadas até a morte. “Assim farei cessar a lascívia da terra”, declara Deus, “para que todas as mulheres aprendam a não fazer segundo as vossas lascívias” (Ezeq. 23:47–48). Ezequiel 16 apresenta uma metáfora sexual muito semelhante para questões religiosas e políticas. Mais uma vez, a severidade das penas ameaçadas sugere fortemente uma expectativa de que a lascívia não seria facilmente extirpada” (
Moore, 2000, p. 3
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Proibição do adultério
Proibição de cobiçar a mulher do próximo
“Caracteristicamente, eles buscavam construir fortificações morais ou barreiras protetoras contra fortes tentações, proibindo não apenas o ato tentador, mas até mesmo a consciência da tentação.” (
Moore, 2000, p. 4
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Sobre fornicação com uma serva
: “Em outras palavras, se o homem tivesse bens suficientes para dispensar um carneiro, para ele o episódio não representava praticamente nada. A pobre moça ao menos preservava a vida, embora fosse severamente punida e provavelmente perdesse o marido prometido.” (
Moore, 2000, p. 5
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“Além disso, a vingança — enquanto forma legítima de agressão — pode gerar enorme prazer, especialmente quando se apresenta como defesa da pureza moral” (
Moore, 2000, p. 5
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Idolatria
“Assim, esse texto funciona como uma sinistra justificativa para o massacre em nome da pureza moral.” (
Moore, 2000, p. 6
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Restrições alimentares e objetos impuros
“Podemos passar agora às numerosas e amplamente discutidas noções de poluição provenientes de uma variedade de objetos que podem entrar no corpo humano, ser excretados por ele ou, de outras formas, entrar em contato com ele. Muitas sociedades humanas — letradas ou não — estabeleceram inúmeras regras sobre poluição e o corpo humano.” (
Moore, 2000, p. 6
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“Como apontou Mary Douglas em Purity and Danger, regras elaboradas — especialmente regras alimentares — ajudaram os antigos hebreus a preservar sua identidade distintiva, justificativa para sua própria existência” (
Moore, 2000, p. 6
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“De acordo com uma passagem posterior, Lv 7:21, não há perdão para violações ligeiramente diferentes: tocar a “imundícia de homem” e comer “da carne do sacrifício pacífico que pertence ao Senhor”. A pessoa que fizer isso “será eliminada do meio do seu povo”. Presume-se que essa penalidade, frequentemente mencionada, equivale a ostracismo interno. Aparentemente significa que ninguém pode manter contato com tal pessoa culpada — uma punição muito severa numa sociedade fortemente dependente da cooperação mútua.” (
Moore, 2000, p. 7
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“O sacrifício do bode hebraico antigo — sobre o qual há mais detalhes em Levítico 16 — entrou na língua inglesa como scapegoat (“bode expiatório”), provavelmente porque dois bodes eram escolhidos, segundo Lv 16:8–10: um sacrificado e outro solto no deserto para realizar a expiação diante de Deus. Embora mecanismos como esse, que tornam a moralidade tolerável, sejam comuns nas sociedades humanas, também ocorrem esforços para criar e intensificar sentimentos de culpa. A religião pode criar culpa e depois “curá-la”. Há muitas evidências de que esse processo estava em curso entre os antigos hebreus. Quando chegarmos aos calvinistas, que se modelaram nos antigos hebreus, o processo de criação — ou reativação — da culpa ficará evidente. Se os calvinistas tinham uma cura, isso já é menos claro.” (
Moore, 2000, p. 8
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“Aprofundando um pouco mais, as restrições alimentares se assemelham a um conjunto de regras de evitação que, em um momento ou outro, apareceram em diferentes sociedades ao redor do mundo. As sociedades criam regras de evitação para manter as pessoas afastadas de algo considerado perigoso — como incesto, doenças ou outras ameaças. Em sociedades não letradas, e de modo algum apenas nelas, a ameaça é percebida como resultado de ter ofendido um espírito ancestral, de não ter apaziguado um espírito maligno ou de alguma outra força malévola do ambiente. O remédio, então, é proibir o contato com aquilo que parece ser a fonte do perigo.” (
Moore, 2000, p. 9
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PONTO IMPORTANTE: “A tentativa de encontrar algum tipo de ordem ou racionalidade nessas ordenanças pode ser uma perda de tempo — e uma perda de tempo bastante etnocêntrica, aliás. Seguindo esse raciocínio, pode ser pior do que uma perda de tempo: pode ser um erro sério. Em vez disso, talvez seja melhor tomarmos a completa arbitrariedade e a ausência de motivo aparente dessas ordenanças como um fato etnográfico central sobre a sociedade hebraica antiga. Fazer isso evita forçar as evidências com inúmeras inferências questionáveis. Também nos permite ver que o primeiro Deus monoteísta era pelo menos tão arbitrário quanto alguns de seus predecessores politeístas — e bastante mais do que muitos deles. Por que essa arbitrariedade? A resposta é bastante simples. Poder que não é exercido deixa de ser reconhecido como poder.” (
Moore, 2000, p. 10
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PONTO IMPORTANTE: “A tentativa de encontrar algum tipo de ordem ou racionalidade nessas ordenanças pode ser uma perda de tempo — e uma perda de tempo bastante etnocêntrica, aliás. Seguindo esse raciocínio, pode ser pior do que uma perda de tempo: pode ser um erro sério. Em vez disso, talvez seja melhor tomarmos a completa arbitrariedade e a ausência de motivo aparente dessas ordenanças como um fato etnográfico central sobre a sociedade hebraica antiga. Fazer isso evita forçar as evidências com inúmeras inferências questionáveis. Também nos permite ver que o primeiro Deus monoteísta era pelo menos tão arbitrário quanto alguns de seus predecessores politeístas — e bastante mais do que muitos deles. Por que essa arbitrariedade? A resposta é bastante simples. Poder que não é exercido deixa de ser reconhecido como poder.” (
Moore, 2000, p. 10
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“Com o fim dos demônios politeístas como causas de doenças e infortúnios, a única explicação possível tornou-se uma explicação moral: a falha em obedecer à vontade de Deus. Rotular uma pessoa como impura por tempo indeterminado e expulsá-la da comunidade, cortando-a da maior parte — senão de todos — dos apoios sociais, era praticamente a penalidade moral mais severa possível nas condições daqueles dias. Apenas a execução teria sido mais severa, e poderia ter parecido preferível para algumas vítimas de longa duração” (
Moore, 2000, p. 11
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“Contudo, o sacrifício no caso da casa é diferente. Os elementos essenciais desse sacrifício são os seguintes: o sacerdote toma dois pássaros. Ele mata um e usa seu sangue na limpeza cerimonial da casa, aspergindo-o sete vezes. O pássaro vivo, por sua vez, ele solta “fora da cidade, a campo aberto, e fará expiação pela casa; e ela será limpa” (Lev. 14:53). A oferta de expiação indica que uma casa, assim como um humano, podia estar impura em um sentido pecaminoso. Quatro versículos depois, a discussão da doença das escamas chega ao fim: “Para ensinar quando é impura e quando é pura: esta é a lei da lepra [doença das escamas].” É a impureza que importa e que é enviada por Deus.” (
Moore, 2000, p. 12
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Benzer a casa
Conclusão
“A situação se torna mais clara se olharmos novamente para a palavra “moral”. Ao longo deste estudo, procurei usá-la no mesmo sentido que William Graham Sumner atribuiu aos mores. Para Sumner, tanto os folkways quanto os mores eram modos populares, profundamente arraigados, de pensar e agir em uma sociedade. São formas de comportamento coletivo. Mas os mores diferem dos folkways porque carregam uma noção de bem-estar social. Assim, a violação de um ou mais mores é algo grave em qualquer sociedade. Todo tipo de sanção será mobilizada em um esforço coletivo para punir a violação dos mores. Tal violação é, definitivamente, um ato imoral. Já a violação dos folkways é muito menos séria e, em geral, resulta em nada além de constrangimento. A pessoa que viola folkways de forma intermitente é tratada como um desajeitado ou um excêntrico, não como uma ameaça social.” (
Moore, 2000, p. 13
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O que pe mora -->
“Mas a maior parte dos mandamentos e ordenanças divinos constituía tentativas de estabelecer novos mores e de impedir que os antigos hebreus adotassem os mores dos povos que haviam conquistado e entre os quais se haviam estabelecido.” (
Moore, 2000, p. 13
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“Para eles, comportamento ético significava obediência completa às ordenanças divinas. A doença de pele em humanos e casas vinha da desobediência a Deus e, portanto, constituía uma falta ética” (
Moore, 2000, p. 14
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“Apesar de todas as exceções e tendências contrárias recém-mencionadas, a invenção do monoteísmo pelas autoridades religiosas dos antigos hebreus foi um evento cruel e de enorme impacto mundial. Ela teve de ser cruel no sentido geral de que qualquer identidade de grupo tende a ser formada em competição hostil com outros grupos. E teve impacto mundial no sentido de que o Cristianismo — apesar da surpreendente e dramática tolerância de Jesus para com mulheres “caídas” — incorporou a intolerância vingativa dos antigos hebreus, amplificou-a e institucionalizou-a. No século XVIII, como veremos, a intolerância vingativa e persecutória foi secularizada.” (
Moore, 2000, p. 15
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“A essa altura, a tradição monoteísta não era, certamente, a causa mais importante do nazismo ou do stalinismo. Mas era, sugiro, uma causa indispensável.” (
Moore, 2000, p. 15
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