O desenvolvimento individual “se dá no interior de uma determinada situação histórico-cultural, que fornece aos sujeitos, e com eles constantemente reelabora, conteúdos culturais, artefatos materiais e simbólicos, interpretações, significados, modos de agir, de pensar, de sentir. Assim, o bebê, que permanece deitados nos meses iniciais de sua vida e precisa de cuidados do adulto, dadas certas características peculiares da espécie humana e próprias de sua fase de desenvolvimento, será acalentado, banhado, alimentado, vestido, de muitas maneiras diferentes, conforme as práticas culturais de seu grupo social. As características da espécie e das várias fases do desenvolvimento ontogenético serão interpretadas de acordo com as visões de mundo e as formas de significação próprias de cada cultura. A puberdade, por exemplo, conjunto de transformações fisiológicas ligadas à maturação sexual do indivíduo, é interpretada e tratada de formas diversas em diferentes culturas. Do mesmo modo, outros fenômenos do desenvolvimento, originalmente provenientes de características da espécie ou das fases de desenvolvimento individual (por exemplo, o treino para controle das funções excretoras, a aquisição da linguagem, a velhice), recebem significação e tratamento peculiar dentro de cada cultura.
Em cada situação de interação com o mundo externo, o indivíduo encontra-se em um determinado momento de sua trajetória particular, trazendo consigo certas possibilidades de interpretação e ressignificação do material que obtém dessa fonte externa.
É importante destacar que, além da ênfase nos processos de origem biológica, a busca da universalidade como meta maior do empreendimento científico tem resultado na apresentação daquilo que é contextualizado historicamente como sendo universal. Pensemos, por exemplo, nos grandes períodos em que normalmente tem sido dividida a vida humana - a infância, a adolescência, a idade adulta e a velhice. Essas etapas nos têm sido apresentadas como universais e associadas a características comuns a todas as pessoas e a todos os grupos humanos: a infância como período em que ocorrem as experiências com efeito determinante e configurador de todo o desenvolvimento posterior; a adolescência como a época das mudanças drásticas e turbulentas; a idade adulta como o momento de estabilidade e ausência de mudanças importantes; e a velhice como sinônimo de deterioração dos processos psicológicos. Sem levar em conta aspectos da cultura e individual do sujeito, essa perspectiva não contempla a multiplicidade de possibilidades de desenvolvimento humano, nem tampouco à própria essência do desenvolvimento, que é a transformação.
De modo geral as teorias psicológicas são menos articuladas e densas à medida que avançamos ao longo do desenvolvimento da pessoa: sabemos muito sobre bebês, menos sobre jovens e quase nada sobre adultos. As questões analisadas anteriormente explicam bem essa peculiaridade da psicologia: como esta tem sido tradicionalmente uma ciência do indivíduo e que pretende chegar a explicações universais para o desenvolvimento humano e quanto mais jovens mais similares entre si são os indivíduos dos vários grupos culturais, de certa forma é mais fácil construir teoria para etapas da vida em que os sujeitos são mais próximos de sua origem animal, de sua determinação orgânica, sem tanto peso da cultura em constituição. Bebê de três meses, por exemplo, de qualquer tempo e lugar, são muito mais parecidos entre si do que crianças de 4 anos, que já dominam a língua do seu grupo cultural, escolares submetidos ao mundo da escrita e do conhecimento sistematizado, e, claro, adultos inseridos no mundo do trabalho, das relações familiares complexas e da própria condução do “projeto cultural” de constituição dos membros plenos das diferentes culturas.
Podemos dizer que especificidade da psicologia enquanto ciência a situa nos domínios do biológico e do cultural. Mas isso não significa que a gênese e a evolução do psiquismo resultem do acréscimo da cultura sobre um substrato orgânico. Ou, ao contrário, que a cultura regine um substrato inato. Existe, com efeito, uma ligação primária e fundamental entre a biologia e a cultura na gênese do psiquismo, mas trata-se de um processo no qual esses dois constituintes são complementares. (Wallon, 1975). Para Vygotsky, igualmente, as funções psicológicas têm suporte biológico, mas o homem transforma-se de biológico em sócio histórico, num processo em que a cultura é parte essencial da constituição da natureza humana. (Oliveira, 1993). Por isso, e em virtude de o psiquismo se desenvolver por referência a determinado contexto histórico e cultural, a universalização das etapas do desenvolvimento torna-se um obstáculo teórico-metodológico de difícil, senão impossível, ultrapassagem.
As formas de organização do desenvolvimento humano em períodos apresentadas nas diversas teorias psicológicas não são heterogêneas a ponto de serem irreconciliáveis, nem parecem proceder de fontes teóricas ou empíricas radicalmente diversas. Isso ocorre porque: há componentes biológicos do desenvolvimento, como os maturacionais, que definem limites e possibilidades universais; há uma certa homogeneidade nas manifestações comportamentais nas menores idades, ancoradas nas necessidades elementares dos organismos imaturos em espécie humanas e nas construções culturais que respondem a essas necessidades; as teorias psicológicas têm sido produzidas no interior da cultura científica ocidental, referidas a uma determinada versão das possibilidades de desenvolvimento humano e não a outras. Muitos dos sistemas de periodização do desenvolvimento humano tem até mesmo servido como base para a elaboração de estratégias aplicáveis nos domínios da prática da educação, da psicologia e da medicina, relacionadas aos objetivos desses campos no interior dos grupos culturais em que eles se desenvolveram.