cartela inicial: "este filme surgiu de uma longa série de explorações no norte realizado para o SIR Mackenzie entre 1910 e 1916."
quer dizer: há aí, claramente, uma camada "exploratória" investigativa do desconhecido. uma curiosidade pelo que estaria fora do campo de conhecimento de um ponto de corpo e de uma realidade.
esse desejo de conhecer e de fazer imagens deve ser destacado no prinicpio do documental. assim como a imersão e a vontade de olhar.
Faço REferência a um Filósofo que discorre sobre o NARRADOR: para ele haveria dois tipos fundamentais que seriam ou o jovem viajante ou o camponês sedentário, aqueles que contam histórias e compartilham suas experiências em comunidade.
o cinematógrafo, inclusive, não é a primeira maneira de se projetar imagens cinematográficas. havia antes, ali na mesma época, o desenvolvimento de máquinas que pudessem capturar imagens e projetar pra uma pessoa. como é o caso do cinemascópio, se não me engano, inventado pelo thomas edison. mas o cinematógrafo criou essa possibilidade projetar imagens para se ver em conjunto.
o flaherty conta na cartela inicial que perdeu uma lancha e um barco nas viagens exploratórias, quer dizer, tem um lado do risco aí, que remonta a todo o imaginário das narrativas de viajantes, de navegadores que enfrentam os mares para conhecer o mundo e realizar trocas, fazer pesquisas, e, como bem sabemos, colonizar ouros continentes, como é o caso das grandes navegações nos séculos XV e XVI, não é?
Uma primeira versao do filme é feita! o negativo pega fogo, mas a cópia pode ser apresentada e ele vê que não era suficientemente boa, para então se concentrar na vida dos Inuits (esquimós), ao invés de se concentrar na viagem. mais principalmente EM UM PERSONAGEM que TIPIFICASSE os esquimós.
vejam, há já, aqui, uma escolha clara: Concentrar-se sobre uma personagem. eles serão apresentados em seguida, 4min 55: cartela e rosto deles, nanook/nyla, corajoso e sorridente;
ele pretende entao voltar e apresentar imagens que fez aos esquimós. o faz e em seguida continua a filmar.
NANOOK do Norte, ua história de VIDA e AMOR "in the actual artic", no ártico REAL.
quer dizer: há uma pretensão clara aqui de viajar pelo imaginário do "extremo" norte, de conhecer uma realidade longínqua, de ver a VIDA REAL no espaço lá fora! no caso, aqu "as misteriosas terras estéreis"! do norte do canadá.
primeira imagem sem ser a cartela do filme: O Mar do norte. A navegação, o deslocamento, viagem
3min15s: "nenhuma outra raça sobreviveria à esterilidade do solo e o rigor do clima" mas lá vive a gente mais alegre do mundo, os valentes, queridos e felizes esquimós.
"graças a sua amável confiança e paciência este filme foi possivel. Vejam que a condição de feitura do filme é a relação com os locais, com o ambiente local, com atenção para aqueles com quem o filme é feito, e não apenas "sobre quem" o filme é feito, certo?
tem uma cineasta do vietnam que mora nos USA e ela diz, em um de seus filmes: este filme não fala "dele", mas "próximo a", destacando essa importância da imagem como um procedimento criativo não apenas no local em que se realiza um filme, mas também naquele campo ou naquela região.
percebam: o filme é aqui uma forma de ver o outro, de narrá-lo, de mostrá-lo. essa busca pela alteridade, esse "ver o outro" assim se configura já neste protótipo de documentário.
uma narrativa aparece de inúmeras formas: vejam, pode-se
contar
apresentar
expor
dizer
reproduzir
todas essas são maneiras diferentes de compor a narrativa.
4min:13 - cartela: a área de caça de Nanook é do tamanho do reino da inglaterra. antes ocupado por menos de 300 almas:
percebam o trabalho das informações. como isto tem algo de literatura, e um certo tipo de literatura, não é?
Vejam a imagem como mapa: o mapa é um utensílio chave na navegação. Veja como o filme RECORTA o mapa, como se traçasse uma região, não é? é um traço sobre a imagem fixa, mas a veremos em movimento.
relação cartela-imagem no inicio do filme é muito forte. a necessidade de encaminhar informações e tornar a imagem bem legível do ponto de vista da atenção, do direcionamento. é o caso, por exemplo, do "combustível" utilizado por nanook, um musgo que ele queima pra produzir calor, assim como a pele de foca utilizada nos kayaks ao prepará-los para a caça, as botas que eles utilizam, que são de pele de foca, a necessidade de colocar o trenó em cinma do iglu durante a noite para os cães nao comerem a pele de foca, o gelo que se coloca no trenó para ele deslizar sobre a neve que é como areia, no ártico, quer dizer, a ideia de que se conhece uma realidade pela utensiliaridade, pelos instrumentos, pelos "aparatos". veremos durante o filme descriçoes de varios utensilios: isca pra pescar, em seguida a venda da pele de urso que Nanook caçou. troca de peles por facas. Claro, outra característica muito clara deste filme é justamente a criação de antagonismos constantes entre o homem e a natureza, apresentada como hostil desde o início do filme. não à toa o fato de o filme se concentrar na personagem Nanook e em sua família se apresenta de duas maneiras: uma certa romantização da personagem que vai de par com a hostilidade da natureza, quer dizer, cria-se um antagonismo na narrativa fílmica, a partir desta relação de enfrentamento pela sobrevivência, por um lado, e de uma hostilidade natural, de outro. Essa é uma fonte das sequências do filme, o que o faz não ser nem apenas um documentário etnográfico de observação, tampouco um registro de viagens do diretor. essa dramatização do antagonismo entre a personagem principal e a natureza, quer dizer, das condições de sobrevivência, chamo atenção pra relação com os cães: como eles passam fome, brigam, apanham, tem uma sequência, que é a da caça à foca, que o filme monta o nanook limpando a foca e o cão rangendo os dentes de fome. ele repete esta justaposição de planos de modo a tornar bem explícita a fome do cão. a escolha da repetição fortalece a expressividade da situação. essa repetição (são oito planos do cão esfomeado enquanto nanook limpa a foca) ao mesmo tempo permite mostrar o processo de limpeza da foca sem expor o tempo real do processo e ao mesmo tempo tensiona o olfato e, eu diria, a fome, canina. percebam que em seguida a brincadeira das crianças alivia a situação anterior. mas ainda assim "é muito frio"!