A fé, no sentido atual e corrente do termo, é acreditar em uma doutrina, mas esse não pode ser o sentido bíblico originário, porque as pessoas que acreditaram em Jesus Cristo não conheciam doutrina nenhuma. A doutrina católica não estava formulada — ela foi sendo formulada aos poucos, ao longo do tempo, à medida em que as pessoas contavam os fatos do Evangelho e isso suscitava objeções. A coisa passava da narrativa para a discussão e daí aquilo que os apóstolos sabiam por experiência transposta em narrativa tinha de passar por uma segunda transposição, transformando-se em argumentação. Foi isto que gerou a doutrina católica, se não ela não existiria. Isso está muito bem explicado num livro do Alois Dempf (que é um macro-historiador, super-historiador, maravilhoso historiador), que tem uma tradução espanhola, publicada pela editora Gredos, chamada La concepción del mundo en la Edad Média (eu não lembro do título em alemão). Mesmo essa edição da Gredos é difícil de achar. Ele mostra como foi se formando a doutrina católica a partir das objeções — os elementos da doutrina católica foram aparecendo soltos, e só mil anos depois é que surgem as Sumas, que é a tentativa de organizar aquilo pela lógica. No princípio eram pontos separados, que vinham só para responder a objeções. Essas objeções não surgem dentro da exposição de uma doutrina, mas a partir de uma narrativa: o sujeito conta uma coisa, da qual ele foi testemunha direta ou indireta, e o que ele conta suscita objeções. Daí ele passa da clave narrativa para a clave argumentativa, tentando mostrar que aquilo que aconteceu é também razoavelmente possível. No que aquelas pessoas tinham fé? É muito simples: no próprio Evangelho. Eles dizem: “Eu não posso curar a mim mesmo, mas Você é o Filho de Deus, Você pode”. Aquilo é a confiança numa pessoa. Isso é completamente diferente de acreditar numa doutrina. Eu acho que é uma blasfêmia monstruosa entender a fé como a crença numa doutrina, porque todo mundo pode ter doutrina (muitas são verdadeiras, outras são falsas), mas o que vai distinguir esse caso não é a doutrina, mas a presença real do Cristo que age. É nisso que você tem de ter fé, e não na doutrina. A doutrina é apenas um conjunto de pretextos intelectuais elegantes para sustentar essa confiança, se você precisar dessa justificação intelectual. Isso ajuda? A prova de que isso não ajuda é o número de teólogos heréticos que existe. Essas discussões teológicas dão mais problemas do que resolvem. Quanto mais você explica, mais você confunde; quanto mais explicações, mais surgem objeções, cada vez mais artificiais, até sufocar tudo — até que a doutrina vire o contrário dela mesma, como acontece com essa turma da Teologia da Libertação, esses modernistas todos